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Fabricação de talentos

Laboratório de construção de instrumentos musicais com material reciclável é um dos cursos de baixo custo da Oficina de Música ofertados nos bairros

| Notícias - 04/02/2014 12:33

Enquanto centenas de alunos de formação clássica da Oficina de Música de Curitiba se dividiam em cursos altamente especializados no centro da cidade, na semana passada, a alguns quilômetros dali, na Vila Torres, o arte educador Helinho Sant’Ana perseverava em uma missão de inclusão musical com garrafas plásticas, canos de PVC e latas.

SLIDESHOW: Confira imagens da oficina de construção de instrumentos com materiais recicláveis

O professor da oficina de construção de instrumentos musicais com material reciclável, desde a década de 1990 às voltas com o ensino de música para crianças em situação de vulnerabilidade, reconhece: há um abismo entre a música celebrada no circuito principal da Oficina e as técnicas rudimentares que ensina aos alunos, entre seus 7 e 15 anos. Mas os chocalhos, cuícas e agogôs construídos em seu laboratório podem despertar talentos que não têm acesso a instrumentos tradicionais, geralmente caros.

Os cerca de 30% dos moradores da comunidade que trabalham com coleta de material reciclável, nos cálculos de Irenilda Arruda, presidente da Associação Clube de Mães da Vila Torres – local do curso –, dão ainda mais significado à oficina.

“Mas não é porque os pais foram recicladores que isso tem que continuar de geração em geração. Às vezes, por causa disso, se perde um grande doutor, um professor ou mesmo um músico”, diz Irenilda.

Aí entraria a sensibilização estimulada por Helinho. “Encontramos nas oficinas muita vocação inerente a esses jovens, que, se resolvessem seguir na área artística, se dariam muito bem”, diz o músico. “Não que eu espere transformá-los em profissionais. Mas usamos a música e a arte como instrumentos na transformação e inserção social deles.”

O curso é realizado nas unidades regionais da Fundação Cultural de Curitiba, que ofereceu, também a baixo custo (R$ 10), oficinas de canto, formação de plateia para jovens e musicalização infantil. De acordo com o site da Oficina, quase todos estão lotados.

Sede de informação

Eli Siliprandi, professor da oficina de canto coral, defende a importância das abordagens de iniciação musical nos bairros afastados, tendo em vista o principal perfil de alunos dos projetos musicais que vem realizando na periferia desde 1998: trabalhadores de formação cultural simples e com poucas oportunidades educativas à disposição – fator fundamental para o acesso à música clássica, conforme já mostraram pesquisas de instituições como a Paraná Pesquisas (divulgada pela Gazeta do Povo no último dia 7) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que relacionam o consumo das belas-artes com a escolarização.

“É mais válido um curso de construção de instrumento nestes locais do que um de violino, que é algo que leva uma vida inteira de estudo”, comenta Siliprandi. “Na periferia, temos que ter resultados imediatos, ou não conseguimos convencer as pessoas do que elas podem fazer, e de que podem seguir adiante”, diz.

Ainda assim, o músico faz questão de apresentar elementos da música erudita em suas oficinas, que têm foco no popular. “Eles se encantam da mesma forma. A sede de informação e o talento não escolhem posição social.”

Por Rafael Rodrigues Costa
Via Gazeta do Povo em 21/01/2013

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