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Morador da Vila Torres representa o país em convenção da ONU

Jovem  falou sobre liberdade de expressão e violência nas escolas no Dia do Debate Geral, em Genebra, na Suíça

| Notícias - 01/10/2018 00:15

Por Gica Rossi

Gabriel Genivaldo dos Santos, 16 anos, morador da Vila Torres, representou os adolescentes brasileiros no Dia do Debate Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), que aconteceu no último 28 de setembro em Genebra, na Suíça. Morador de Curitiba, Gabriel falou para os representantes do Comitê de Direitos da Criança das Nações Unidas.

O adolescente brasileiro falou sobre “Liberdade de expressão e violência nas escolas”, tema definido pela ONU e discutido em eventos da Fundação Marista de Solidariedade Internacional (FMSI) e enviado ao Comitê, como subsídio do Dia de Debate Geral. No Brasil, a coordenação do trabalho foi do Brasil Marista.

Gabriel foi o único brasileiro a discursar para o Comitê. Ele foi escolhido para falar sobre o tema por sua representatividade e liderança. “Minha participação é importante pois, além de ser representante brasileiro, represento também os adolescentes das periferias do Brasil, cujos direitos são violados desde o nascimento. Represento a voz ativa dessas comunidades à procura de novos olhares do mundo para o nosso mundo”, disse Gabriel Genivaldo dos Santos, aluno do Centro Educacional Marista Eunice Benato

Além de Gabriel, o brasileiro Pedro Cezarino Gouvêa, de apenas 11 anos, também foi ao evento como participante. A convenção acontece a cada dois anos e reúne jovens de diferentes países do mundo para falarem sobre assuntos relacionados aos direitos das crianças.

Leia abaixo o discurso completo do Gabriel Genivaldo dos Santos:

Boa tarde a todos e todas, meu nome é Gabriel Genivaldo dos Santos, brasileiro, morador da Vila Torres localizada em Curitiba, que fica no Estado do Paraná.

Vou compartilhar com vocês uma história baseada em fatos reais e essa história repete a rotina diária de muitas crianças e adolescentes brasileiras.  Vou dar o meu nome ao personagem, pois me identifico com essa história, tanto no passado, quanto no presente.

Gabriel, morador das periferias brasileiras, desperta pela manhã com muita fome e sozinho em casa, se arruma e vai para a escola, sem o café da manhã. Sua mãe, acordou bem antes, mãe solteira, precisa trabalhar para sustentar a casa com muito sacrifício. Segundo uma pesquisa da Fundação Abrinq, 40,2 % das crianças brasileiras ainda vivem em situação de pobreza no Brasil.

Continuando o trajeto para a escola, no meio do caminho Gabriel presencia drogas ilícitas que são lhe oferecidas por traficantes. Em situações mais difíceis, Gabriel já foi surpreendido por um tiroteio entre traficantes de drogas e a polícia, desesperado, ele correu para a escola e ainda assustado, ouve as imposições dos professores: “Sente-se na cadeira e fique quieto!” E é obrigado a ficar em média 05 horas assistindo um monólogo, em uma sala superlotada, com 39 alunos em um espaço de 51,84 m² ouvindo conteúdos que não dialogam com sua realidade.

Ao mesmo tempo que o aluno é desconsiderado, o professor também é desvalorizado pelo estado e é obrigado a dar conta de um currículo massivo, pois o mais importante é o conteúdo e não as vidas humanas. Essa história, é do Gabriel, mas os demais 38 outros alunos vivem situações de conflitos tão difíceis quanto as dele, qual será o resultado de um espaço que é depósito de crianças e adolescentes, vistos como número? Como não criar conflitos em um espaço onde a criminalidade não é discutida, onde a punição é presente e as relações interpessoais são privadas?

O resultado é que a violência verbal e física atingiu 42% dos alunos da Rede pública de ensino (segundo a pesquisa feita pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso)), sendo que um em cada dez estudantes no Brasil é vítima frequente de bullying. O resultado não é diferente, a escola segue uma metodologia do século retrasado, com professores do século passado, mas com alunos deste novo século. Os conflitos já são previsíveis neste cenário, e se intensifica quando o território que ele faz parte está localizado nas periferias, que são excluídas das políticas públicas da cidade.

Normalmente, os conflitos são tratados de forma punitiva ou são somente desconsiderados. Os problemas são vistos como supérfluos, “frescura” ou bobagem e as pessoas como robôs. Neste lugar, não existe espaço para humanidade e restauração, existe um caminho perfeito para a fabricação de novas violências.

Eu sonho com uma escola que me forma para a vida, respeita a minha história, me abraça e me ajuda a almejar um novo mundo possível dentro do meu território, que há muito tempo deixou de sonhar.

Salvem a minha escola!

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